O tempo envelhece devagar

 

detalhe do parque Centenário da Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes, São Paulo, por R.I.

[ao som de ‘Lascia ch’io pianga’, de Haendel, na voz de Cecília Bartoli]

 Soube que ela esteve na casa do irmão, uma visita inesperada. Devia ter quase noventa anos, viajando sozinha de ônibus sem falar português. Não encontrou ninguém, mas deixou uma fotografia dele quando jovem e um número de telefone. Mais de trinta anos depois da morte dele essa foto. Destacada de um álbum, trazida em saudade ou redescoberta, qual teria sido sua intenção?

 Tantos anos, nenhuma palavra. Lembro da cadência de sua voz no desenho curvo de um afeto lento. Decantando e restando ao longo de uma infância desgastada; ganhando distância até ser esquecida na sedimentação do dia a dia. Agora o gesto no silêncio. Quase na invisibilidade desses fios que ela carrega,  não abandona, que outros significados?

 Já faz algumas semanas, trinta anos. Desde então não mais notícias dela. Nem retrato. Talvez não tenha mudado muito.  Apenas o contato parece acelerar a roda da história.

Anúncios

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s