O que esfria

lua crescente sobre o Auditório Ibirapuera, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

[ao som de ‘Rainy night in Georgia’, de White, na voz de Randy Crawford]

A chuva veio com vontade. Com quase o mesmo peso da mala que ele suspende pelas ruas em mudança. Mas os golpes da água não o amolecem mais. Pode chover o que falta, inundar o que sobra e não terá retorno. Já as roupas esfriam enquanto atravessa as poças entre os sobreviventes da noite. É por instinto que se move. Faz continuar a viagem mal começada.

 Veio com vontade à estação em que embarca no ônibus que partirá com chuva ou lua cheia. O barulho das conversas parece um coro em harmonia com os restos que atiça e remói enquanto procura se secar. Tanta dedicação, todo desperdício. Nove anos de partilha reduzidos a poucas frases fixas, que se repetem na cabeça ao ritmo dos esguichos de água contra a janela na espera da saída.

 A vontade vai com ele, ônibus, chuva. É a memória que a move. Mal parte, lança planos de voltar. Só as roupas esfriam em seu corpo.

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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