Não deixar

barcos na baía da praia do Pontal, em Paraty, por R.I.

barcos na baía da praia do Pontal, em Paraty, por R.I.

Por que se dedicar ao aprimoramento da sensibilidade, cultivar as artes, a expressão estética, se já se sabe de antemão onde tudo isso vai acabar? Por que estudar, se desenvolver, criar, quando se tem um tempo limitado, um prazo de validade?

Não é possível parar de refletir sobre essas questões ao se terminar de ler o livro ‘Never let me go’, de Kazuo Ishiguro (existe edição brasileira: ‘Não me abandone jamais’, disponível na rede municipal de bibliotecas de São Paulo). O paralelo com nossas vidas persiste por mais distante que possa parecer o destino daquelas criaturas. Não importa o segredo, que esse vai se desvelar logo ou tarde. Porque o despertar para essa verdade é muito similar ao nosso. Podemos até saber de imediato o que nos aguarda e o efeito será parecido.

Para que viemos à vida talvez perca significado ao se saber do fim programado para ela. Ou saber que se está ajudando os outros confere algum sabor a esse drama da existência?

A arte produzida pelos jovens de ‘Never…’ servia para provar que eles tinham alma; não eram apenas máquinas restituidoras do humano. Não eram apenas corpo, matéria. Através dos desenhos, poemas, esculturas, eles expressavam algo mais do que era deles esperado. Talvez fosse inútil. Talvez incomodasse.

Pois esse belo livro espalha um incômodo profundo por nos tocar tão perto com sentidos que perdem razão e sentimentos sem vias de escape.


Ele foi transposto para o cinema em uma adaptação sensível e fiel. No filme, dirigido por Mark Romanek, Carey Mulligan brilha intensamente, com uma atuação rica em matizes e densidade.

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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