Por que este mundo

vitral da igreja de Nossa Senhora da Penha, em São Paulo, por R.I.

vitral da igreja de Nossa Senhora da Penha, em São Paulo, por R.I.

Cada vez que termino de ler um livro muito bom sinto frio. Como se um vento vindo do sul carregasse a vida para fora. É um frio de tremer, mais que despedida. De sentir falta da casa que por um tempo foi parte.

Talvez por isso tenha demorado tanto para concluir, lendo aos poucos, arrastadamente aos poucos a magnífica biografia ‘Clarice,’ de Benjamin Moser. Foram meses de uma companhia iluminada, trazendo vitrais das profundezas, desembaçando percursos, confrontando enigmas desse assombro literário que é Clarice Lispector.

Quanto aprendi da história do mundo, tanto me espantaram pequenos gestos, frases sem espera. Durante a Segunda Guerra, atrás das linhas de batalha em solo italiano, a escritora escreve cartas em nome dos soldados feridos. Quem adivinharia receber seu texto assim, através?

Havia magia na forma como ela tocava as coisas com as palavras, devolvendo seu mistério e a conexão com o transcendente. Nunca mais o cotidiano passaria sem perturbar. E as perguntas não encontrariam repouso.

Percorrer a vida de alguém que se admira é mais difícil do que seguir com sua própria existência. Não apenas porque a toda hora se pressente o espreitar do fim. Mas também porque nos confere uma falsa intimidade, um direito de participar e dividir sem poder expandir o tempo nem conversar de verdade. E tudo fica muito denso, concentrado, coagulado. Quando se é dado a conhecer o irreversível já tomou seu lugar.

Mas a obra de Clarice continua a pulsar ferozmente, e em língua brasileira! Uma dádiva milagre a que se pode chegar depois de chuvas, depois. Quando não se confia mais e se começa a destacar o filme plástico que nos deixava diante, tão perto da árvore, mas sem lhe sentir o ar.


‘Why this world’ (Por que este mundo) é o título original, em inglês, do livro de B. Moser.

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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Uma resposta para Por que este mundo

  1. alanyson disse:

    Realmente, é uma sensação diferente. Estou evitando essa sensação esses dias. Estou curtindo o meu vazio. Estou com um livro do Calvino aqui em cotia. Um dia começo… um dia termino. rs

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