Beleza e tristeza

Já tinha visto alguns programas a respeito da mostra de fotos, lido matérias, assistido a entrevistas. Mas nada havia me preparado para o verdadeiro assombro que é estar diante desse conjunto fotográfico. Nem a fama e o prestígio do autor, nem o evidente alumbramento dos lugares, plantas, animais. ‘Genesis’, de Sebastião Salgado, provoca uma profunda comoção. Um silêncio de contemplar e um estrondo para não se conter. Imagem após imagem parece se apagar e se reacender em um estranho pulso. Que exclui quem a vê, que apresenta e sai de cena. Mostra o que está muito distante no espaço e na utopia. Mas, ao mesmo tempo, devolve um sentimento esquecido de pertencer quase partindo.

Dentre todas uma foto me fala mais intensamente. Esta [infelizmente o vidro da moldura produz reflexos que prejudicam a imagem]:

foto de Sebastião Salgado no arquipélago de Galápagos, Equador, parte integrante da exposição ‘Genesis’, no Sesc Belenzinho, zona leste de São Paulo

foto de Sebastião Salgado no arquipélago de Galápagos, Equador, parte integrante da exposição ‘Genesis’, no Sesc Belenzinho, zona leste de São Paulo

Em uma formação rochosa sedimentar leões marinhos dormem um sono tranquilo por todos os cantos. Alguns se enrolam como gatos. Podemos ouvir sua respiração lenta e espiar seus sonhos, enquanto iguanas marinhas descansam em uma das pontas do rochedo. Eles estão em uma baía do arquipélago de Galápagos. Há uma paz, um equilíbrio. Talvez seja a inconsciência deles do risco que se aproxima, do perigo de serem extintos. Talvez seja essa inocência ao animal humano que os espreita, que os descreve o que faz estremecer. Não saber do seu próprio fim pode ser mais pungente aos olhos de quem vive se martirizando pelo destino que determina aos outros.

Como não olhar para o voo deste albatroz:

foto de Sebastião Salgado na Patagônia argentina, parte integrante da exposição ‘Genesis’, parte integrante da exposição ‘Genesis’, no Sesc Belenzinho, zona leste de São Paulo

foto de Sebastião Salgado na Patagônia argentina, parte integrante da exposição ‘Genesis’, parte integrante da exposição ‘Genesis’, no Sesc Belenzinho, zona leste de São Paulo

E não se lembrar do livro-poema ‘The rhyme of the ancient mariner’ (‘A balada do velho marinheiro’), de S.T. Coleridge, em que o marinheiro, depois de semanas à deriva, é salvo pela direção apontada por um albatroz, mas, sem nenhum motivo acaba matando o pássaro? Lembrar da estupidez humana, de sua desconexão com a natureza, de sua arrogância, de sua falta de compaixão.

Há qualquer coisa de muito triste nessas imagens de beleza arrebatadora. Que faz chorar a cada nova aparição como se fosse a última. Como se elas não mais existissem no seu local de origem. Como o brilho de estrela que chega quando a chama já se apagou. É só memória.

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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