Duas rodas, quatro olhos

detalhe da Praça das Artes, no centro de São Paulo, por R.I.

detalhe da Praça das Artes, no centro de São Paulo, por R.I.

Quando entrei para a escola não dava para entender bem as palavras no quadro negro, mesmo sentando bem na primeira fileira. Nada parecia fazer sentido, como as imagens da TV sem antena. Minha mãe se preocupou. Não fazia parte dos seus planos um filho repetir de ano. Ficou dias assim preocupada. Ouviu suas irmãs, suas amigas. Até que alguém falou para procurar um médico. Procurou um, depois outro. Chegou, enfim, a um oculista. Era esse o problema. Feito o óculos, o mundo me pareceu diferente: nítido, como nunca antes. As letras ganharam sentido e as notas melhoraram muito.

Mas se antes passava quieto, agora vinha aquele jeito de me chamarem:

– quatro olho!

– fundo de garrafa!

No aniversário ganhei uma bicicleta. Comecei com as quatro rodas. Demorou até chegar a duas. Mal conseguia me equilibrar, por isso fiquei olhando sempre para baixo. Quando então levantei a cabeça uma parede apareceu antes do que devia e ficou com meu óculos com as lentes trincadas.

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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