O doce sem voz

trilhos da linha ferroviária 8, a partir de passarela no bairro da Lapa, São Paulo, por R.I.

trilhos da linha ferroviária 8, a partir de passarela no bairro da Lapa, São Paulo, por R.I.

[ao som de ‘Sometimes I feel like a motherless child’, de domínio público, na voz de Jessye Norman]

 

Não existe torta de peras ao vinho na confeitaria em que Evandro Affonso Ferreira escreveu ‘Minha mãe se matou sem dizer adeus’ e na qual fica sentado o protagonista narrador em primeira pessoa num domingo alongado. Pode ser um detalhe de menos, mas saiba o leitor que outras tortas dessa confeitaria moveriam deprimidos para além de seu estupor. Lembro bem da torta de damasco, que uma amiga também adorava e que comprávamos nos aniversários ali perto do centro. Não era apenas a doçura ou o sabor refinado. Alguma coisa que não se explica exsudava da textura de sua massa umedecida de amêndoas, do amarelo frutado da cobertura.

Para o personagem não adiantou saborear a torta inexistente em um ato de final desespero. Ela não lhe transferiu a magia reservada a tristes sem fim. Sua materialidade dúctil se absorveu no amargor verbal, na telepatia compassiva do velho-menino pelas pessoas sentadas à sua volta. Nenhum doce daria conta da imensa dor inestancada desse homem à beira.

Senti vontade de ir lá checar se realmente não existiria agora essa torta. Já faz tanto tempo que não visito a confeitaria. Tanto mais que quase não lembro do sabor da de damasco. Só de sua personalidade. Talvez não devesse me preocupar com um detalhe tão pequeno dessa narrativa tão sanguínea do autor. Em um texto espiralado e de agouros sem clemência não haveria espaço para esse toque. Não poderia haver lugar para outro ressaibo que não aquele mesmo que embebe suas páginas e seca qualquer outra voz.

Anúncios

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s