O abraço partido

perspectiva da praça do pôr do sol, no Alto de Pinheiros, São Paulo, por Ricardo Imaeda

perspectiva da praça do pôr do sol, no Alto de Pinheiros, São Paulo, por Ricardo Imaeda

[ao som de ‘Ain’t no cure for love’, de e com Leonard Cohen]

 

Logo que o abraçou sentiu sua fragilidade. Seria o resultado de anos de carência ou o abandono a que se entregou nos últimos meses? Os ossos dos braços e das costas estavam a ponto de se quebrarem à pressão do meu entusiasmo. Que até tive medo do desenlace.

 No fundo entendia essa fragilidade como antes minha, talvez de tantas outras pessoas. Um destroçar próximo, esboroar ao ser atravessado pela luz e pela água. Buracos múltiplos criados pelas desistências depois de cada negativa ou cada impossibilidade confirmada. Como alvos acertados na contramão.

Senti seu corpo fraco, quase farináceo, desintegrando à carga de meu desespero. Tanto tempo passado. Quanto risco deixado sem viver. E agora esse esqueleto se desestruturando no momento em que os corpos se separarem. Não. Talvez ainda enquanto eles estiverem aquecidos no encontro. Quando sentirem os pulsos em corridas desiguais, dissonantes. Os respiros declinando. As palavras surgindo necessárias.

O abraço o enterneceu e imediatamente o alarmou. Alguma coisa escoava sem a menor compreensão. Durou o tempo de seus primeiros acenos, conversas em cafés recém inaugurados, viagens fora de temporada, telefonemas em noites sem fim. Estendeu o prazo de um envelhecimento à parte, distantes na mesma cidade.

Quando afinal, superado o medo do desmoronamento, se separou, viu aquele que tinha abraçado: o desconhecido que lhe havia perguntado: que horas são?

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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Uma resposta para O abraço partido

  1. Márcia de Albuquerque disse:

    adorei, como tudo o que escreves. mas este e o anterior gostei demais!! um abraço inteiro

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