De todos

todas as cores do anoitecer na região oeste de São Paulo, perto da divisa com Cotia, por Ricardo Imaeda

todas as cores do anoitecer na região oeste de São Paulo, perto da divisa com Cotia, por Ricardo Imaeda

Durante muito tempo acreditei no que professores e escritores diziam sobre a raridade e especificidade de uma palavra que só existiria em português, sem equivalente em qualquer outro idioma: saudade. Deveria ser um motivo de orgulho para a língua, defendiam. Mas sempre desconfiei dessa singularidade. Parecia mais uma forma de puxar a lamparina para o próprio território ou se contentar com pouco, além de uma mostra de soberba, já que quem poderia conhecer todas as línguas do mundo?

Agora, lendo Julian Barnes (‘Levels of life’, no Brasil com o mau título de ‘Altos voos e quedas livres’) percebo que também ele cai nessa armadilha, mas em relação ao alemão. E de novo com palavra com o mesmo significado: ‘sehnsucht’, que ele acredita não ter um equivalente em inglês apesar de ele mesmo citar ‘longing’. Por que tantas pessoas insistem em proclamar a exclusividade sobre um termo ou sentido e não encontrar similares fora ou dentro de seu próprio idioma? Parece que sentir falta precisa se lastrear na propriedade: um agarrar do sentimento feito palavra, como se ele pudesse ser apenas de um grupo de pessoas. Como se o significado ganhasse densidade ao ser privatizado, ser de poucos, alheio aos de fora.

Para que tanta ilusão mesquinha? Deixem a saudade ser de todos, espraiar-se sem fronteiras, doer sem a necessidade de dicionários. Mesmo quando ela não se grafar em palavra e transitar somente como um arrepio, uma melodia que vem com as últimas luzes do dia.

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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Uma resposta para De todos

  1. alanyson disse:

    As palavras são posteriores ao sentir. E o sentir é universal. Às vezes eu sinto uma coisa tão estranha, uma falta, mais para uma mutilação que deixou uma ferida aberta, um vazio na garganta, com uma coisa engasgada … quem dera eu pudesse dizer que isso é “saudade” e me dar por satisfeito por ter expressado o meu sentimento. E mais: já que as palavras servem para comunicar, quem me dera eu pudesse ser acolhido em minhas angústias por um ouvinte que compreendesse o que de fato minhas palavras querem dizer. E como seria possível se quando eu digo, sei de antemão que não estou traduzindo bem o que sinto? Ultimamente, me comunico mais nas reticências, nos intervalos entre as palavras, numa reflexão tardia dos acontecimentos.
    Esse céu continua igual e universal. Me refugio nele muitas tardes, só contemplando, sem me importar com a minha pequenez, nem com a sua grandeza, esperando completar a despedida do dia, com toda a sua beleza assombrosa, por isso fascinante.
    Mas, por que eu estava falando disso mesmo? Ah! por causa da “saudade”.
    Esse mirante está de portas abertas para você.
    Obrigado pela visita!

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