Iluminado

detalhe do Teatro Municipal de São Paulo, por R.I.

detalhe do Teatro Municipal de São Paulo, por R.I.

Não sabia bem por que, mas foi convidado àquele programa de entrevistas na televisão. Mais do que procurar motivos agora sua preocupação era encontrar as melhores respostas para as questões pontudas do arguidor. Ou, para estar mais de acordo com seu espírito, vocalizar respostas literárias para as perguntas teatrais do entrevistador.

A conversa fluiu tensa, em ritmo de parque de diversões, arestas e cortadas, frases sem sinal, o tempo não passando. Até que veio a esperada, a última, anunciada pela pausa e puxada de ar rastilhada:

– Beltrano de Tal, o que é     a vida?

Dentre todas as alternativas que tinha ensaiado não lembrava mais de quase nenhuma. Apenas das mais distantes porque decoradas, porque artificiais.

A pausa se estendeu mais do que a que antecedeu a pergunta. Seu rosto ensombreceu de memória e dor. Mas em um esforço convalescente a voz abriu caminho:

– A manhã.

Com a mesma entonação de antes, a mesma divisão silábica, o mesmo desenho melódico, o inquiridor dardejou:

– O que é     a vida?

Agora estava mais confortável na cadeira de restauro em que se sentia finalmente mais dono do embate, o xadrez que nunca esquecera, o tai chi que mal começara, os jogos verbais, ah, os inimigos imaginários.

– A tarde.

A impaciência do interrogante subia um tom na curva íngreme do que é, na ênfase calcada no objeto direto, no encurtamento da pausa:

– O que é a vida?

Para contrabalançar alongou sua pausa, que sabia seria editada para caber no espaço do programa. E, pela primeira vez, acedeu ao apelo dramático ao se aproximar de um sorriso:

– A noite.

Mas o apresentador parecia não aceitar o rumo da contenda e rápido começou:

– Beltrano de Tal

Ao que Beltrano retalhou:

– Agora eu sei. Somente a terceira pergunta me trouxe a clareza que jamais tinha encontrado.

Levantou-se de súbito e saiu apressado sem dar o abraço.

_

Inspirado em ‘Provocações’, de Antônio Abujamra e Gregório Bacic, e ‘A noite escura’, de San Juan de la Cruz.

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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