O algoritmo e o bolo

interior da Fazenda Murycana, em Paraty, por R.I.

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Há muitos manuais práticos de meditação disponíveis no mercado. Ensinam o passo a passo de forma simples, quase todos iguais em cada um deles: a postura, o foco, a respiração. E a promessa de ganhos em concentração, em qualidade de vida. Parece bom, ao alcance de qualquer um. Então, qual é o problema?

Esses guias mais se parecem com receitas culinárias ou, para ficar em matrix, algoritmos para reprogramar a mente. É como seguir aqueles métodos arcaicos de ensino de matemática ou física através da memorização de fórmulas, equações. Automatizar para desautomatizar. E assim vai o bem intencionado aprendiz ao esforço de (tentar) percorrer o caminho pela via mais curta. Como quem busca atalhos, versões resumidas, o trailer no lugar do filme.

Algum sabor ele pode extrair, mas como esse lampejo vai se integrar ao restante de sua vida? Ou ele se contentará apenas com um átimo de relaxamento?

Desconfio que restará um ressaibo de frustração em parte – de quem lê a receita, vê a foto do bolo e o sente se afastar quando começava a acreditar que ele era real, que seria possível prová-lo. O bolo, não a ideia do bolo.

Decorar a receita parece fácil, assim como segui-la. Assim, onde está o ardil? Talvez na própria concepção de meditação como uma técnica, um mero instrumento, ou como um fim em si mesmo. Uma visão que a isola do tod em que ela cumpre um papel importante mas acessório. Ou que a ritualiza, fetichiza: aquele momento especial que passa a ser vivido como espetáculo. O algoritmo como um anel com poderes mágicos ou chave para sensações extra-sensações.

Parece legítimo querer a receita. Tanto ainda buscar segui-la. Mas talvez o que pode ganhar mais sentido é olhar com profundidade para a própria receita, para os ingredientes, para si próprio, para seus conhecimentos, para tudo o que está ao redor. E fazer o bolo. O bolo que se fizer.

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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Uma resposta para O algoritmo e o bolo

  1. Alanyson disse:

    Estou fazendo um bolo. Um bolo de ingredientes misturados no olho de um furacão.

    Saudades de você, meu amigo budista.

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