Grandes esperanças

entardecer em rua de Siena, na região da Toscana, Itália, por Riccardo Imaeda

entardecer em rua de Siena, na região da Toscana, Itália, por Riccardo Imaeda

Existem livros que agradeço ter vivido para poder ler e partilhar de sua riqueza. Nos últimos meses foram muitos. Alta literatura de desvelamento e reflexão sobre o estar no mundo, sentir e caminhar através das ruínas que vão se avolumando. Algumas vezes a descoberta foi tardia mas a leitura ganhou com a experiência dos anos. Em outras foi adiada tanto que o deslocamento provocou outra perspectiva de olhar.

Meu encontro com Charles Dickens foi assim extemporâneo, se isso é possível no caso de um grande clássico. Talvez improvável no espaço-tempo de agora. Não importa. Porque ‘Grandes Esperanças’ (‘Great Expectations’) é livro para acordar e arrepiar a qualquer tempo, em qualquer momento da trajetória.

É de Pip que Dickens nos fala, esse menino órfão, de origem pobre, assolado por um golpe de sorte, uma esperança de fortuna vinda de um benfeitor desconhecido e que vai se transformando a partir de então. Daí seu afastamento de Joe, o único amigo mas vincado à condição social que Pip se empenha em deixar para trás. Daí a ingratidão, o desconforto, a vergonha, a culpa, o não pertencimento a mais nenhum lugar. Mas também o fascínio por Estella, com uma história similar à sua, uma ascendente de beleza ‘sem coração’. O romance ganha tons de thriller quando Pip descobre a identidade de seu benfeitor com todas as implicações a ela associadas. Além da fluidez com que narra todas as peripécias e reviravoltas, Dickens expõe com refinada maestria a complexidade dos sentimentos e valores éticos dos personagens em suas sutis variações de matiz nas mudanças de situação e nos choques das interações humanas. A jornada de Pip vai do deslumbramento à deformação à queda ao horror à redenção. Sua história vai nos reconhecer em algum canto ou ao longo de toda a tomada de consciência e das transformações por que ele passa. No seu desejo de ser diferente, nos empuxos para recuperar os laços de uma amizade verdadeira.

As esperanças enquanto ilusões parecem levar à danação ao trazer a fortuna (a sorte, o dom) sem a virtude (a alma, a humanidade). Mas enquanto um sonho lúcido permitem ao menos restituir a incerteza dos caminhos que se bifurcam.

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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