As espirais em que chegamos e nos afastamos

detalhe do antigo hospital Umberto Primo, parte do complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

detalhe do antigo hospital Umberto Primo, parte do complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

‘Não posso continuar esperando a manhã, pois nem sei de que lado ela pode chegar.’

—  Menalton Braff

 

Antes tarde do que depois. Somente agora começo a tomar contato com a alta literatura de Menalton Braff. Que me impressiona e alerta com a sua riqueza de visão e capacidade de expressá-la. É um daqueles raros autores que derramam luz sobre as faces mais conhecidas do cotidiano para extrair delas densidades inesperadas. Como se olhássemos pela primeira vez com a sabedoria de um deus onisciente ou com o largo espectro e a profundidade de quem esperou demais e aprendeu. Alguma coisa entre o imediato insight e o demorado crescer de um conhecimento. Assim nos reconhecemos naqueles personagens que são nossos também – uma parte de cada um, retorcido, transformado, mas lá, mas aqui.

Nem é preciso um roteiro cheio de intrigas ou reviravoltas. O que mais espanta em seu texto é o desvendar dessa visão em que cada fóton parece ganhar voz com uma linguagem original. ‘Bolero de Ravel’ mostra dois irmãos, Adriano e Laura, jovens adultos, lidando com a pós-morte de seus pais em um acidente. Adriano desde adolescente é alguém que decide sair do sistema – da lógica da vida estruturada em agenda, da praticidade das coisas, do mercado. A perda dos pais faz com que ele afunde ainda mais no processo de encapsulamento e deserção do mundo externo, enquanto Laura é aquela que maneja o lado prático da vida, da normalidade. ‘Bolero…’ se desdobra em espiral como a música de mesmo nome, enquanto os irmãos se centrifugam. Simpatizo com a negação de Adriano mas não sei até que ponto ou quando ela leva à corrosão da capacidade de se comunicar com essa vida institucionalizada e de alguma forma manter a afirmação dessa diferença. Há uma tragédia a caminho ou uma forma de liberação?

Na fina escrita de Menalton Braff as iluminações de cada fragmento assombram e encantam o percurso em que nos transformamos e tentamos compreender.

Anúncios

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s