O luar que podemos ouvir

lua crescente sobre o rio Arno em Florença, Itállia, por Riccardo Imaeda

lua crescente sobre o rio Arno em Florença, Itállia, por Riccardo Imaeda

É madrugada. As bombas deram uma trégua à cidade quase toda ruínas. A menina lê com os dedos e fala pelo transmissor de rádio o capítulo final do livro de Jules Verne. Quando encerra o texto coloca o disco, faz a máquina girar e a agulha extrai as primeiras notas de ‘Clair de lune’, de Debussy. A algumas centenas de metros dali, preso sob os escombros de um hotel, sem água ou alimento, bateria descarregando, o rapaz sintoniza o rádio.

Essa é uma das cenas culminantes de ‘Toda a luz que não podemos ver’, de Anthony Doerr. Uma cena que continua a piscar muito tempo depois da leitura, muitos livros depois. Que me arrepiou na hora em que a li, desde os momentos iniciais em que ela se anunciava. Naquela desolação a música flutuava como o outro mundo possível, riscada para fora e assombrando com sua delicadeza o horror de uma guerra. Na beira do abismo a arte.

Para além de qualquer abismo, como substância mesmo, como estofo a manter de pé as pessoas a resistirem, a atravessarem os infortúnios da deficiência e da dor.

Esse era o primeiro encontro da menina que não podia ver com o menino que não conseguia ver. Pelas ondas faiscadas do rádio. Um contato entre jovens arrancados de suas trajetórias pela violência mas que teimavam com o sopro de uma beleza recuperável.

Há muitas outras linhas narrativas cruzando o livro, confluindo e se afastando, mas essa cena parece ferir com uma força sem recuo. Cada dia ganha em firmeza, como aqueles momentos decisivos em que vivemos por inteiro a nossa história. Estamos lá naquele instante e eterno. Um daqueles raros momentos em que visitamos o infinito com a consciência de vivê-lo plenamente.

 

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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