Ao mestre, com todo o amor

cerimônia das lamparinas em noite de passagem de ano no templo Zu-Lai, em Cotia, por Ricardo Imaeda

cerimônia das lamparinas em noite de passagem de ano no templo Zu-Lai, em Cotia, por Ricardo Imaeda

Celebro hoje o aniversário de noventa anos de Thich Nhat Hanh, monge e mestre querido por milhões de pessoas em todo o mundo. Para mim a presença mais inspiradora ao longo de tantos anos. Desde o dia-noite em que li ‘O coração da compreensão’ e o que antes pareciam apenas ensinamentos ganharam corpo como sentimentos inteiros, parte de algo maior, de um todo ao mesmo tempo fonte e caminho.

Esse é o livro em que Nhat Hanh comenta o Sutra do Coração, um dos textos essenciais do budismo, aquele que fala do vazio de todas as manifestações. O que parecia muito difícil de entender se torna cristalino na tradução contemplativa e poética de Hanh. Ao ver esta folha de papel o que podemos ver em profundidade? Não apenas a matéria física, o papel, mas também a árvore, a terra que a sustentou, a chuva que a regou, o sol que a alimentou, o lenhador, a mãe do lenhador, e assim sem um ponto final porque, de fato, tudo contribuiu para que esssa folha de papel pudesse estar aqui agora. Consigo me ver nessa folha e consigo te ver ali também. Ela é vazia porque composta de todas as coisas que não são a folha de papel. E, da mesma forma, com tudo o mais. Esse é o verdadeiro sentido da interdependência, de porque o que afeta uma pedra no outro extremo do planeta me afeta igualmente. Minha dor não se esgota em mim. Ao saber disso posso me libertar. Ela, como eu, é vazia, composta de tudo o mais que não ela mesma. Não tem uma existência isolada, não tem uma essencialidade própria, não tem imanência.

No inverno as folhas caindo não devem sofrer. Elas sabem que estão se separando da árvore apenas momentaneamente. Vão se integrar à terra, voltando à fonte, ao todo, de que nunca deixaram de fazer parte. Elas realimentarão o solo, revigorando a árvore, de que continuam fazendo parte. Só mudam de forma, e as formas são vazias. Ser vazio é muito bom. Permite que possamos ser tantas outras coisas, enquanto tudo está em movimento.

Ver o vazio é transformador. É retirar tantas camadas de ilusões e conceitos que acumulamos durante toda a vida. Tudo o que parecia real mas é apenas uma percepção errônea das coisas, aquela que não consegue ver que elas intersão, como diz Hanh.

A flor e o lixo intersão. São a mesma coisa. A flor é o lixo, o lixo é a flor. A única diferença é o tempo: a flor bonita e viçosa em alguns dias se deteriora e se transforma em lixo; o lixo, que adubo, dará origem à flor. Quem vê profundamente uma flor vê o lixo. Quem vê profundamente o lixo vê a flor.

Essa capacidade de ver é libertadora também porque permite desatar os nós do apego e da aversão. Não mais nos apegamos à flor, não mais repudiaremos o lixo.

Lendo ‘O coração da compreensão’ chorei. Senti que alguma coisa muito bonita havia me tocado e mudado definitivamente o caminho que eu iria percorrer.

Thich Nhat Hanh é um Buda que vive entre nós.

 

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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