Um dia a mais

detalhe do espetáculo ‘Os reis preguiçosos’ da companhia de teatro francesa Transe Express, em Ipiranga, São Paulo, por R.I.

Les Misérables, dezesseis anos depois no palco outra vez. Uma nova versão, muito pouco diferente da que vi em 2001, mas quanto mudou no mundo, no país e na vida pessoal! Era uma época em que ainda havia algum encanto ou esperança no processo político e social, em que se acreditava em algumas instituições e segmentos, na ação coletiva, em ideais. Uma inocência ingênua ou teimosa, uma não contaminação. Quando se podia chorar por identificação com as causas justas, com os gestos compassivos, as razões certas.

Agora é um gosto de passado. Como se os personagens que vejo passando se misturassem com o espectador, que se mudou para o espaço da ficcionalidade. Eles vivem em mundo que se evaporou em possibilidades que deixaram de ser. Ainda podemos chorar, mas de saudade e pesar. A lógica cínica do casal Thénardier parece ter se espraiado onipresente, as injustiças se consolidaram em pedras que bilhões de Valjeans estão condenados a quebrar, mesmo com todas as novas tecnologias.

As canções ainda me arrepiam com as melodias amplas e as notas dramáticas, sublinhadas por interpretações de verdade e furor. A cenografia continua minimalista, permitindo que os atores ocupem o espaço com seu talento.

Les Mis ainda me diz muito. Talvez agora de uma forma diferente. Antes me mostrava a fantasmagoria de projetos em que poderia me sentir participante. Então, como em ‘I dreamed a dream’, os tigres vieram de noite com suas vozes suaves como o trovão. Na tempestade em que tudo parece se diluir Les Mis resta bravejante como uma lembrança da humanidade que poderia ter sido.

*

O elenco está magnífico. Algumas traduções melhoraram, outras permanecem insatisfatórias. As legendas de localização sumiram e fazem falta. O público exulta com a alta qualidade do resultado final.

Anúncios

Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Um dia a mais

  1. Ricardo Neves disse:

    Como sempre excelente texto que de certa forma nos transporta para a magia do espetáculo. Ainda não assisti, mas desde já compartilho as elucubrações a respeito do desencanto vigente. Forte abraço! Ricardo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s