As cordas bambas de todos

[ao som de ‘Wind in wires’, de Patrick Wolf]

 

Em uma nublada manhã de agosto de 1974 Philippe Petit estendeu um cabo de aço no alto entre as duas torres do World Trade Center e caminhou sobre ele. Não apenas andou como também se ajoelhou, deitou, pulou, dançou e correu. É um momento sublime, uma epifania. Cento e dez andares, quatrocentos e cinquenta metros abaixo outras pessoas se equilibram sobre outras cordas, mas ao nível do solo.

 Essas histórias são contadas por Colum McCann em ‘Let the great world spin’ (‘Deixe o grande mundo girar’, na versão brasileira). Habitantes da cidade em suas ocupações e aflições deslizando pelo plano de ruas e avenidas, seus próprios fios tremulando no choque com as outras pessoas.

 Alguns seguem apenas no estribo da rotina. Outros alternam o dia com a perspectiva do eterno. Acompanhá-los em qualquer uma das trilhas é aceitar um convite para reencontrar chaves perdidas, iluminar cantos esquecidos. Não é o Bronx dos setenta um espelho tão distante assim. Nem os entrechos de perda, sofrimento e resistência. Nos vários percursos que várias vezes se tocam e se cruzam existe muito que pode significar em qualquer latitude.

 Lá está Gloria, essa senhora que sobrevive à morte de seus três filhos na guerra do Vietnam e à violência igualmente odiosa do preconceito velado, da lâmina dos assaltos, da indiferença, e caminha. Caminha sua dignidade, riscando a cidade com seu passo de quem vê a vida na sua inteireza. Que adota as duas meninas abandonadas à sorte das margens e rompe o ciclo de repetição a que elas estariam condenadas. Que vive o vácuo da perda mas sabe se deixar vibrar pela música, que lhe abre a porta do absoluto.

 Ela é apenas uma de tantas personagens ricas de humanidade que McCann sopra e faz nascer com a mais fina escrita. Com a mais aguda consciência. Um olhar profundo, que descobre as camadas e lhes confere sentido. Um olhar de cuidado, que compreende e se solidariza.

 Quem termina de ler o livro parece voltar ao giro do mundo com uma recarga de alimento. Para a alma a enfrentar as novas cordas que virão. E para o corpo, com sua generosa dádiva de equilíbrio e beleza.

 

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Sobre Ricardo Imaeda

Um amigo. Em passagem por terras estranhas, imigrante nativo. Tem aprendido com todas as formas de vida. Gosta de cidades e montanhas, árvores e culturas. Anda por um caminho temperado pelo zen, na incerteza de cada dia. Escreve para compreender, para encontrar.
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