A gatos

detalhe do Pueblitos Los Dominicos em Santiago, Chile, em uma manhã antes de terremoto, por Ricardo Imaeda

 

Artistas acolhem gatos

agora que anoitece a manhã

 

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Leve

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A leveza é difícil e é bela. Tão mais distante de ser valorizada porque parece volátil, dispersiva. Baixa densidade é confundida com pouca importância para quem quantidade sinaliza valor.

O que é leve escapa, como tuo o que é raro escapa à apreensão. Flui como o ar, os pássaros em voo, partindo sem data em caminhos quase invisíveis a quem busca roteiros bem marcados. Difícil de suportar, difícil de durar, o movimento não termina, puxado por ventos que não param.

A leveza não tem casa. Talvez por isso repele a simpatia, o gosto. Não confere segurança a ninguém.

 

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Desmarginação

rio Arno, em Florença, Itália, por Riccardo Imaeda

rio Arno, em Florença, Itália, por Riccardo Imaeda

A essa altura já sabemos que Lila, a amiga de Elena, é mesmo genial. Não apenas por sua inteligência extraordinária, mas também pela coragem de agir de forma autêntica contra as expectativas e as tradições estancadas naquela região periférica de Nápoles. Lila é a brava menina, que desafia e desestrutura, nega e cria a partir de sua imaginação ou da capacidade de observar as coisas de ângulos diferentes. Na aspereza do mundo pobre que a rodeia ela sempre é capaz de fazer brotar a beleza. É assim com o par de sapatos que ela desenha e que vai alimentar as esperanças de sua família ao longo de todo o primeiro volume da tetralogia napolitana ‘A amiga genial’, de Elena Ferrante.

Mas mesmo essa destemida Lila guarda um medo ancestral, subterrâneo: algo que ela chama de ‘desmarginação’, o risco de perder as bordas, as fronteiras que mantêm a integridade do corpo e do espírito, e se espalhar desconjuntada, como um líquido que se perde pelo espaço, um gás que se dispersa e não se reconhece mais.

Seria como se manter a unidade fosse resultado de um equilíbrio muito delicado, instável, passível de ser rompido não apenas pela violência externa mas também pelas irrupções do próprio crescimento. E esses gatilhos se multiplicam cada vez que novos conflitos aparecem, da necessidade de abandonar os estudos, da insolvência com os pais, das distâncias com os projetos sonhados.

A desmarginação é um esmagamento invertido. Não o indivíduo soterrado pela força do sistema, mas ele diluído pela fragilização de suas membranas – osmose, drenagem. Mais do que se liquefazer é ser vítima de uma secagem, a que tanta gente se faz paisagem e destino.

Além da história de uma bela e complexa amizade, ‘A amiga genial’ é um tecido fino de ensaios de resistir à desmarginação. Às vezes de forma desajeitada, com erros que custam vários anos de recuo; às vezes de forma impulsiva, com entregas momentâneas e fugas. Um tecido sem um roteiro prévio, aparente. Mais parecido com as próprias vidas, com essas margens que vão se mantendo e fortalecendo à medida que se imerge na leitura.

 

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Meu aprendizado Zen (1)

El Morado, nos Andes chilenos, por Ricardo Imaeda

El Morado, nos Andes chilenos, por Ricardo Imaeda

São quase vinte anos e não é o período de tempo que importa. No início foi a busca de um sentido que me levou em direção a ele. A necessidade de encontrar justificativas e respostas. Um alento, uma saída. Nem imaginava coisas sobre círculo de nascimento e morte. Queria um caminho, um mapa. E tantos foram os desvios, as dúvidas, as incompreensões. E que difícil ir contra o fluxo em um mundo estruturado e se fechando…

Passos perdidos, voltas e retomadas foram acontecendo em um segundo plano enquanto a luta pela sobrevivência ocupava a maior parte da cena. Foi quando comecei a colocar em questão a própria versão de luta que tanto parecia evidente, universal, desde sempre reconhecida, um destino trivial. Ao longo de tantos anos sempre me vi tendo de combater para não submergir. Por ser diferente desde a origem em um meio que não era o meu, em uma família que não se ajustava à gramática de afetos, contra as perspectivas da mediocridade, contra as perspectivas de ser tragado pela máquina do sistema.

Mas a luta sempre fora desigual e sempre me cansava, desgastando o estoque de impulso cada vez mais. Mas a luta me movia e, por muitos anos, foi o principal motor de meu percurso. Conferiu sentido, deixou muitos espaços em branco.

As inquietações ganham mais força quando saio do mundo estruturado. A partir daí a sensação de estranhamento atinge cúmulos que jamais havia imaginado. Cada vez mais isolado e só, a impressão que tinha era que de fato já havia saído da vida. É acordar sem ter que seguir um roteiro predeterminado por outros. sem ter compromissos, sem ter conversas obrigatórias, sem ter superiores, inferiores, iguais. Levantar sem um motivo, seguir o dia sem um prazo definido, sem um ponto de chegada. Pode ser desesperador. Pode ser enlouquecedor. Ao mesmo tempo, a própria visão de luta começa a perder substância.

 

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O líquido e a água

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Poucos sociólogos ganharam a popularidade de Z. Bauman, talvez por causa da sintonia entre as suas preocupações e a pertinência da noção de liquidez, que ele associou à condição contemporânea. Essa sensação de que tudo perde consistência e forma, escapa das mãos e se esvai como os líquidos. E que R. Sennett associou à corrosão do caráter no estágio atual do capitalismo. Para os sensíveis há um estranhamento, um mal estar, deslocamento, como se a terra tivesse se tornado movediça e as pessoas, virtuais sem substância. Tempos de mudança acelerada, de não saber e não chegar.

É estranho pensar nisso quando se está se aproximando de uma forma de ver as coisas muito diferente, mas que também tem a água como uma metáfora. No Tao ela é um símbolo do que flui sem barreiras, sem esforço, em harmonia com o ritmo da natureza. Daquilo que se reconecta ao sentido do todo, da vida em constante mutação, mas que não ofende a sensibilidade de cada um que lhe faz parte (para usar uma expressão de Elio Vittorini). Uma mesma imagem que traduz realidades tão disparatadas. Como se a água natural sofresse o mesmo infortúnio imposto pelos homens (uma fatia deles).

A liquidez da água parece sabotada pela má fortuna e pela falta de consciência. Mas para onde mesmo ela pode levar?

 

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As coisas guardadas

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É estranho olhar para coisas guardadas por tanto tempo em gavetas e armários. Muitos arrepios de vidas passadas parecem levantar como zumbis de ‘Thriller’ mas, ao invés de assustar, eles oferecem uma espécie de conforto. Como velhos conhecidos dormentes, molduras e fundos de cena. Somos o que fomos, o que deixamos de ser, cancelamos, confirmamos, negamos. Mesmo quando rasgamos e jogamos fora para sempre, essas coisas nos fazem pertencer a um mundo com existência própria: a ficção que construímos em conjunto com as circunstâncias.

Quando ensaio escrever, criar outras vidas, sinto o quanto é difícil partir do zero. Talvez seja por isso. Os seres inanimados cobram um preço alto para participar de qualquer nova história. Decantar com o tempo é conviver, dividir os encantos e o tédio de estar ao lado e, por longos intervalos, se esconder para permanecer presente.

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Tão perto

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[ao som de ‘Show me the way’, do repertório de Peter Frampton, que fazia um enorme sucesso na época]

 

Tantos anos depois revejo o meu álbum de fotos, que nem deveria ter esse nome pela escassez de imagens, poucas demais. Meus pais talvez não tivessem uma câmera ou os filmes custassem muito ou simplesmente nada valeria toda essa pena.

O primeiro registro marca uma idade exata: cem dias de vida. Por que será que cem dias eram tão importantes? Não posso dizer que me reconheço, não diria ver nele um estranho. É qualquer coisa entre esses dois distantes que olha de um passado infinito como quem quisesse conhecer essa história agora que eu paro mais vezes no caminho, que o percurso é quase só parada. São algumas fotos de cem dias durando dezenas de anos. Ele está sempre sentado em uma cadeira, majestático, como um monge, esperando o que passa.

Algumas vezes brinco com um aviãozinho, talvez carros; jamais dirigi qualquer veículo, qualquer engrenagem. Existem enormes vazios de tempo sem imagem, como se saltasse entre vidas e esquecesse de olhar no espelho. Raros resquícios, menos ainda lembranças. Talvez começasse a esquecer antes de viver.

Mas ali no final, soltos dentro de um envelope encontro duas fotos de mim jovem, dezesseis anos e meio, porque o selo do correio me permite datar. Estou com cabelo grande, camisa xadrez em tons de marrom, calça na mesma paleta de cor. Olho com uma confiança que parecia firme em uma solidez que apenas a adolescência pode sustentar. Ali o futuro não terminaria alguns anos depois. Ali seria o que não imaginava, viveria o que não seria.

É estranho rever essas fotos hoje, um dia primeiro de janeiro, quando se pensa sobre o que virá sabendo o que não veio. Não, não sinto um amargor de esperanças frustradas nem a dissipação de estradas perdidas. Algo bem diferente. Olhando para esse conhecido bastante íntimo, muito pouco desvendado, sinto uma imensa ternura, uma vontade de abraçar, de conversar e caminhar ao lado.

 

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