Um outro tempo

manuscrito de versão inicial de ‘Tempo Perdido’, de Renato Russo, na exposição do MIS, por Ricardo Imaeda

A primeira versão de ‘Tempo Perdido’, de Renato Russo, tinha diferenças sensíveis em relação ao que viria a ser afinal a canção gravada no disco ‘Dois’, como se pode ver no manuscrito que está na exposição do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.

Não apenas a ordem dos versos é alterada, mas algumas comparações não carregam a força crucial que enfim ganharam voz. É o caso de ‘Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo’, que antes se diluía em ‘é bem mais belo que esse vento amargo’.  Ou de ‘Me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo’, melhor que ‘Me diz que ninguém vai saber que estamos aqui’.

No primeiro esboço havia afirmações um tanto triviais como ‘Estamos tontos ainda de tanto gin e de tanto desejo selvagem’ e ‘Ter sempre sua igreja no meu coração’. E metáforas muito herméticas, como: ‘E sua infância impressa no meu corpo fácil’.

Quando vejo um texto diferente mas ainda assim próximo de uma música que é parte tão essencial de minha vida não posso deixar de me emocionar profundamente. Consigo ver o artista buscando sua melhor expressão, tentando frases, criando imagens, ouvindo seus sentimentos, esperando. E ele mesmo se arrepiando no assombro das feridas e na beleza do encontro.

 

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Os carneiros

detalhe das Grandes Galerias no centro de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Tanto tempo depois finalmente Philip Dick. E ainda mais no texto que inspirou o filme ‘Blade Runner’: ‘Androides sonham com ovelhas elétricas?’ Não entendi a mudança de carneiros para ovelhas na tradução, mas ainda assim o livro se impõe como uma leitura cortante e desesperada a respeito do homem e sua reflexão sobre sua própria natureza. Eis o homem sem um percurso, sem saber seu alcance, Rick Deckard sem o charme que ganhou no cinema com Harrison Ford. Não é um romance policial de ficção científica; é antes uma espécie de ‘Édipo Rei’ de um mundo com deuses reinventados, falsos, encenados. Quando quase todos os animais foram extintos a humanidade parece também se dissipar e entanto alguma coisa ainda está acesa. Não sei bem o quê em toda essa distopia parece insuflar um resto de ânimo. Talvez a fragilidade mesmo dos que restaram.

 

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De ontem

O brilho das estrelas vem do passado, nos diz a física. A linguagem, a cultura também. Mas e o esquecimento? Essa parece ser uma construção contínua, arrastada ao longo do tempo que começa lá atrás e persiste no presente como uma máquina de destruição. Como um apagar de luz. E na sombra cada vez mais densa alguma surpresa ainda pode se insinuar quando o desejo move os riscos do destino.

 

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Renascença

vista do rio Arno ao anoitecer em Florença, Itáilia, por Riccardo Imaeda

Um dia a mais, um ano a mais. Renascer é uma bênção e um destino a encontrar a cada novo respiro.

 

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Os barulhos do fim do mundo

Não é uma sensação de claustrofobia, apesar do pouco espaço. O que incomoda mais são os barulhos, a cacofonia longa e sinistra a que se é submetido. Desmoronamento, bombardeio, metralhadoras a cada nova esquina do tempo em que se passa naquele cilindro onde se faz a ressonância magnética.

Que invenção mal acabada! Para que ouvir esses ruídos todos? Não pode ser bom o que se afasta tanto da beleza, da harmonia de linhas ou sons. E, no entanto, é com isso que se conta. E por ele se espera para saber mais. Enquanto se suporta mais um fim de mundo sem conhecer o que virá.

 

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A beleza da viagem

o rio Arno e a região sudoeste de Florença vistos a partir da Galeria Uffizi por Riccardo Imaeda

A beleza está quase extinta nos jornais e outros meios de comunicação. Ela sobrevive apenas nos cadernos de turismo. Até na seção de Artes e Cultura ela foi substituída por imagens e produções que procuram antes chocar ou ‘conscientizar’ do que expressar uma visão de assombro ou encantamento diante da realidade ou da imaginação. Querem reduzir o que é bonito à ingenuidade em um mundo brutalizado e marcado pelo cinismo.

Talvez por isso o desejo de viajar se reacende. Não apenas para voltar a contemplar com prazer, mas para respirar e reencontrar o melhor de mim mesmo, que se arrisca a desaparecer sob os escombros desse inferno. Mais do que a busca de lugares novos vale a busca pela beleza que ainda sobrevive. A beleza de paisagens e obras, conjuntos e detalhes. Viajar para fugir, viajar para se manter diferente. Agora que o caminho se estreita e não encontro mais quase ninguém.

 

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Forza sempre, Jerry Adriani

[ao som de ‘Nel frattempo’, versão em italiano de ‘Por enquanto’, de Renato Russo, na voz de Jerry Adriani]

 

Enquanto minha mãe estava à máquina de costura na sala, ouvia o rádio e a música parecia vir da janela sem vista, ou com vista para a parede do vizinho. Era mais uma dessas tardes mornas, em que a rotina parecia repetir a mesma tarde de tantos dias. Era o começo dos anos setenta, mas poderia ser o fim dos sessenta; um longo mesmo dia. Apenas as músicas traziam alguma novidade diferente, algum lugar de fora para aquela casa. Não lembro bem das canções, mas os nomes dos cantores, esses ficaram para sempre. Roberto Carlos, Wanderleia, Paulo Sérgio, Jerry Adriani.

Teatro do Sesi, avenida Paulista, 1999. No show de lançamento de ‘Forza sempre’, disco tributo a Renato Russo com versão em italiano de grandes canções da Legião Urbana, tudo ia bem até que alguns espectadores reclamam do uso de playback. Com muita calma e elegância Jerry explica esse uso face à dificuldade de ter todos os instrumentos no palco, desliga os plugues e continua a cantar magnificamente. O incidente serviu para quebrar a aura de magia do espetáculo mas trouxe um momento de conversa que deixou o cantor mais próximo do público. Tanto tempo depois volto a ouvir sua voz, agora ao vivo, interpretando músicas que sempre me emocionaram e marcaram minha vida.

Trinta anos de diferença, muitas vidas depois, é um encontro, um reencontro e uma saudade infinita.

 

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