As espirais

escadaria do Museu da Casa Brasileira em São Paulo, por Ricardo Imaeda

‘Não posso continuar esperando a manhã, pois nem sei de que lado ela pode chegar.’

– Menalton Braff

 

Antes tarde do que depois. Somente agora começo a tomar contato com a alta literatura de Menalton Braff. Que me impressiona e alerta com a sua riqueza de visão e capacidade de expressá-la. É um daqueles raros autores que derramam luz sobre as faces mais conhecidas do cotidiano para extrair delas densidades inesperadas. Como se olhássemos pela primeira vez com a sabedoria de um deus onisciente ou com o largo espectro e a profundidade de quem esperou demais e aprendeu. Alguma coisa entre o imediato insight e o demorado crescer de um conhecimento. Assim nos reconhecemos naqueles personagens que são nossos também – uma parte de cada um, retorcido, transformado, mas lá, mas aqui.

Nem é preciso um roteiro cheio de intrigas ou reviravoltas. O que mais espanta em seu texto é o desvendar dessa visão em que cada fóton parece ganhar voz com uma linguagem original. ‘Bolero de Ravel’ mostra dois irmãos, Adriano e Laura, jovens adultos, lidando com a pós-morte de seus pais em um acidente. Adriano desde adolescente é alguém que decide sair do sistema – da lógica da vida estruturada em agenda, da praticidade das coisas, do mercado. A perda dos pais faz com que ele afunde ainda mais no processo de encapsulamento e deserção do mundo externo, enquanto Laura é aquela que maneja o lado prático da vida, da normalidade. ‘Bolero…’  se desdobra em espiral como a música de mesmo nome, enquanto os irmãos se centrifugam. Simpatizo com a negação de Adriano mas não sei até que ponto ou quando ela leva à corrosão da capacidade de se comunicar com essa vida institucionalizada e de alguma forma manter a afirmação dessa diferença. Há uma tragédia a caminho ou uma forma de liberação?

Na fina escrita de Menalton Braff as iluminações de cada fragmento assombram e encantam o percurso em que nos transformamos e tentamos compreender.

 

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As cordas bambas de todos

[ao som de ‘Wind in wires’, de Patrick Wolf]

 

Em uma nublada manhã de agosto de 1974 Philippe Petit estendeu um cabo de aço no alto entre as duas torres do World Trade Center e caminhou sobre ele. Não apenas andou como também se ajoelhou, deitou, pulou, dançou e correu. É um momento sublime, uma epifania. Cento e dez andares, quatrocentos e cinquenta metros abaixo outras pessoas se equilibram sobre outras cordas, mas ao nível do solo.

 Essas histórias são contadas por Colum McCann em ‘Let the great world spin’ (‘Deixe o grande mundo girar’, na versão brasileira). Habitantes da cidade em suas ocupações e aflições deslizando pelo plano de ruas e avenidas, seus próprios fios tremulando no choque com as outras pessoas.

 Alguns seguem apenas no estribo da rotina. Outros alternam o dia com a perspectiva do eterno. Acompanhá-los em qualquer uma das trilhas é aceitar um convite para reencontrar chaves perdidas, iluminar cantos esquecidos. Não é o Bronx dos setenta um espelho tão distante assim. Nem os entrechos de perda, sofrimento e resistência. Nos vários percursos que várias vezes se tocam e se cruzam existe muito que pode significar em qualquer latitude.

 Lá está Gloria, essa senhora que sobrevive à morte de seus três filhos na guerra do Vietnam e à violência igualmente odiosa do preconceito velado, da lâmina dos assaltos, da indiferença, e caminha. Caminha sua dignidade, riscando a cidade com seu passo de quem vê a vida na sua inteireza. Que adota as duas meninas abandonadas à sorte das margens e rompe o ciclo de repetição a que elas estariam condenadas. Que vive o vácuo da perda mas sabe se deixar vibrar pela música, que lhe abre a porta do absoluto.

 Ela é apenas uma de tantas personagens ricas de humanidade que McCann sopra e faz nascer com a mais fina escrita. Com a mais aguda consciência. Um olhar profundo, que descobre as camadas e lhes confere sentido. Um olhar de cuidado, que compreende e se solidariza.

 Quem termina de ler o livro parece voltar ao giro do mundo com uma recarga de alimento. Para a alma a enfrentar as novas cordas que virão. E para o corpo, com sua generosa dádiva de equilíbrio e beleza.

 

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Grandes esperas

interior do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

Existem livros que agradeço ter vivido para poder ler e partilhar de sua riqueza. Nos últimos meses foram muitos. Alta literatura de desvelamento e reflexão sobre o estar no mundo, sentir e caminhar através das ruínas que vão se avolumando. Algumas vezes a descoberta foi tardia mas a leitura ganhou com a experiência dos anos. Em outras foi adiada tanto que o deslocamento provocou outra perspectiva de olhar.

Meu encontro com Charles Dickens foi assim extemporâneo, se isso é possível no caso de um grande clássico. Talvez improvável no espaço-tempo de agora. Não importa. Porque ‘Grandes Esperanças’ (‘Great Expectations’) é livro para acordar e arrepiar a qualquer tempo, em qualquer momento da trajetória.

É de Pip que Dickens nos fala, esse menino órfão, de origem pobre, assolado por um golpe de sorte, uma esperança de fortuna vinda de um benfeitor desconhecido e que vai se transformando a partir de então. Daí seu afastamento de Joe, o único amigo mas vincado à condição social que Pip se empenha em deixar para trás. Daí a ingratidão, o desconforto, a vergonha, a culpa, o não pertencimento a mais nenhum lugar. Mas também o fascínio por Estella, com uma história similar à sua, uma ascendente de beleza ‘sem coração’. O romance ganha tons de thriller quando Pip descobre a identidade de seu benfeitor com todas as implicações a ela associadas. Além da fluidez com que narra todas as peripécias e reviravoltas, Dickens expõe com refinada maestria a complexidade dos sentimentos e valores éticos dos personagens em suas sutis variações de matiz nas mudanças de situação e nos choques das interações humanas. A jornada de Pip vai do deslumbramento à deformação à queda ao horror à redenção. Sua história vai nos reconhecer em algum canto ou ao longo de toda a tomada de consciência e das transformações por que ele passa. No seu desejo de ser diferente, nos empuxos para recuperar os laços de uma amizade verdadeira.

As esperanças enquanto ilusões parecem levar à danação ao trazer a fortuna (a sorte, o dom) sem a virtude (a alma, a humanidade). Mas enquanto um sonho lúcido permitem ao menos restituir a incerteza dos caminhos que se bifurcam.

 

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Primeira última

detalhe de ‘O nascimento de Vênus’, de Botticelli, na Galleria Uffizi em Florença, por Riccardo Imaeda

Noite da noite, navego por músicas que ainda me tocam, esbarrando por cantos abandonados no You Tube. São coisas de sozinhos em paz com seus fantasmas de baixa reputação em feriados prolongados ou Natal e ano novo. Ali estão cantores querendo uma chance de acontecer para o mundo, querendo passar para a outra etapa, impressionando com suas notas e histórias.

Ouço sem volta nesse sem fim de mudanças e mudanças as canções que permanecem. Como se não existisse um tempo separando o menino cheio de virás do menino envelhecido de deverias.

Reconheço agora as palavras e a melodia mas em outra voz. Não é mais Roberta Flack; é um timbre agudo masculino; parece não pertencer ao meu passado e retira dali o que esquecia da beleza de ter sido. ‘First time ever I saw your face’, de seu rosto sem traços nem sentido ou mesmo nome. De alguém que sequer notou sua presença. Em um dia cavado nesta noite da noite essa música esbate no meu rosto mais fundo que na alma. E continua com sua chuva de dardos ferindo-me a pele enquanto não termina.

A primeira vez que vi seu rosto não existia essa voz. Não sabia que era a primeira ou que haveria uma seguinte. Não havia nada de especial, nem deveria haver. Não senti coisa alguma nem pesou o estrado do tempo.

Nesta noite da noite parece diferente. Essa voz desterrou uma face em decomposição para os ventos de uma nova turbulência, para tingir seus mesmos traços. Mas ver seu rosto pela primeira vez uma última vez.

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Matt Cardle e sua aterradora interpretação de ‘First time ever I saw your face’:

https://www.youtube.com/watch?v=E_wOnVbDtdg

 

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Ossos

detalhe de escultura de Angelo Venosa no jardim de esculturas do MAM, parque do Ibirapuera, São Paulo, por R. I.

De fato são os ossos que ficam

Só ossos

E enfim nem passos nem figos

Por isso não falo

demais

As frases já morrem

enquanto cozinham

Vieram tarde

Arenosas, não cálcio

O que são ossos

depois que vão?

 

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Contorno

David, de Michelangelo, na Galleria dell’Accademia in Florença, Itália, por Riccardo Imaeda

[para D. R.]

 

Sou o que resta do vento, o arrepio da pele, o tremular e o descanso de pelos, frio e suor. Olham-me nos traços de limites fracos que me escapam toda vez que respiro. Quase sinto o abafar de seu fôlego a cada curva que se fixa nos papeis. Estou parado e tropeço em coxas, panturrilhas. Minhas, de todos eles. Partes indivisas que me caminham dia a dia, num ritmo estranho, de quem não sabe onde chegar. Tropeço no peito liso, de leves ondulações, morno escaldante – do aconchego ao delírio, bicos e planícies. E afundo no cacho de talos e bagos, na promessa de seiva, sementes. Seu corpo é minha alma, despida por sua luz.

 

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Justiça literária

gavetas com cartas de imigrantes no Museu da Imigração, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

Finalmente um prêmio como o Nobel de Literatura vai para um grande escritor. Esta página está feliz pela escolha de Kazuo Ishiguro neste ano. ‘Não me abandone jamais’ é um dos livros desconcertantes do final do século XX. Mais que uma antevisão de um futuro distópico, é uma reflexão sobre a própria concepção de utilidade a que são criados os seres humanos. Meros fornecedores de órgãos para outros, reserva de esperança para quem tem condições de pagar mais, criaturas-objeto a serviço de um mercado, experimentos científicos que se angustiam com a finalidade programada e buscam escape. Lembra ‘Blade runner’, o filme de Ridley Scott ou ‘Androides sonham com ovelhas elétricas?’, de Philip Dick, que serviu de base para o filme.

A escrita de Ishiguro é lâmina que corta e revela, transparente mas matizada, embaçada por um sentimento que não sabe onde caber e sulca a trilha por onde vaga.

Os contos de ‘Noturnos’ vêm em outra atmosfera, mais leve e amena. São histórias sobre músicas e anoitecer em locações diversas. Trazem a lembrança, o sabor de incidentes ou encontros felizes, engraçados, decisivos. Na aparente despretensão das narrativas Ishiguro sublinha a força de coisas imateriais, como uma canção, que passam a significar tanto mais na sequência de cada vida.

Há outros livros dele para ler e celebrar.

 

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