Onde

‘onde está o tempo está o drama’

– Lygia Fagundes Telles

 

Está distante. Isolado, distante.

É um outro, sente-o assim diferente, demasiado.

Passou o tempo e é como se ali tivessem ficado as pistas de reconhecimento. Desconhecido assim segue sem parar.

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Mil

O que mais se sente, gratidão ou pesar por uma falta? Onde colocar a ênfase, multiplicando por mil a palavra, o gesto? Penso nisso quando comparo o ‘mil perdões’ ou ‘mil desculpas’ do português brasileiro com o ‘grazie mille’ do italiano. Nunca será tanto reforçar a fala com os zeros dos milhares. Talvez pela insuficiência da simplicidade, a solidão do sentimento desacompanhado. Mas é curioso que aqui o que precisa de reforço seja a remissão de um erro e ali, a obtenção de uma graça – humana, não divina. Mil agradecimentos, mil obrigados. Seria uma forma de intensificar ou fazer durar o reconhecimento? Ou, ao contrário, ao se propor em série, automatizada, terminaria por banalizar o sentimento? Os perdões também, poderíamos argumentar.

Qualquer coisa que é adicionada de números ganharia um foro de precisão, na inversa. Ainda que um número assim genérico, redondo. Como aquele que as religiões orientais usam para designar uma quantidade imensa, quase impensável: dez mil – as dez mil direções, dez mil constelações.

Talvez algumas penas não se abrandem com mil desculpas. Mas de alguma for,a elas podem avolumar o manto que amortece as duas pontas dessa dor.

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Da difícil arte de moer café

Depois de ter fracassado com o moedor manual, muito difícil de controlar a resultante, agora tento com o aparelho elétrico. E também aqui os problemas não são poucos. Dizem que é uma questão de correlacionar o peso dos grãos com a quantidade de minutos em que se pressiona o botão de pulsar. Mas onde está a balança para tão poucos gramas? E a espessura do pó de café não é fácil de avaliar – quanto é fina o suficiente? Não é apenas um juízo visual, mas o tato deve interferir. Não é uma simples operação matemática. Moer café mobiliza o talento da intuição. Como se a granulatura buscada estivesse ao alcance de uma sincronia de movimento, respiração e acaso. Uma adivinhação que se afinaria com a familiaridade com o fazer. De se compor o gesto, a intenção e a fortuna do fruto se transformando no ingrediente de uma cultura.

Ao tentar me incluir nessa arte sinto forçar um tanto os limites de um conhecimento para o qual sou estranho. Tão estranho quanto em outros campos em que outros mistérios nem sempre entregaram tanto sabor.

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Fellini, 100

sala dedicada a Fellini em Cinecittà, Roma

Mais do que qualquer outra coisa a visita a Cinecittà me atraiu por causa da sua relação com Fellini. Sabia que ele havia filmado boa parte de suas produções nesses estúdios e que ele tinha um carinho especial pelo lugar, mas não sabia que a ele havia uma sala inteira dedicada no museu, com uma rica memorabilia de seus filmes. Na visita guiada soube, ainda, que o estúdio 5 foi onde ele recriou a laguna de Veneza para ‘Casanova di Fellini’ e que durante as gravações Fellini literalmente morava em uma sala anexa. Logo na entrada, nos jardins está a cabeça de Venusia, do mesmo filme. Hoje seria seu centenário. Por muitos anos ele foi meu cineasta preferido, em um tempo em que a fantasia e uma visão afetiva da vida conseguiam se impor sobre a aridez de uma hiper-realidade que espolia o que resta deste lado da tela. Cada vez que revejo as fotos de Cinecittà me sinto ainda próximo – não, gostaria de me sentir ainda próximo de seu ideal estético de existência…

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Tangentes

É tarde de uma segunda-feira de garoa quando passo perto do Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo. Vejo muitos turistas como em poucos lugares da cidade. Turistas de tantas origens diferentes, tantos estrangeiros. Parece que estou mesmo em terra estrangeira. Em uma sorveteria me perguntam ‘Wanna try?’ e então me dou conta de que sou isto também como um turista. Ainda que me sinta assim da forma como vejo e vivo a cidade esse olhar de fora me surpreende. É um ponto de coincidência inesperado, um encontro de visões em tangentes, centrífugas, de raspão, como tendem a ser os conhecimentos em viagem.

Olho para os turistas sem me reconhecer; me olham como turista; me olho sem me reconhecer, com toda a paisagem que se satura em nova imagem que se faz estranhar. Essas linhas se cruzam rápido e desaparecem quando caminho mais alguns metros para fora da cena, de volta às margens.

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário