Renascença

vista do rio Arno ao anoitecer em Florença, Itáilia, por Riccardo Imaeda

Um dia a mais, um ano a mais. Renascer é uma bênção e um destino a encontrar a cada novo respiro.

 

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Os barulhos do fim do mundo

Não é uma sensação de claustrofobia, apesar do pouco espaço. O que incomoda mais são os barulhos, a cacofonia longa e sinistra a que se é submetido. Desmoronamento, bombardeio, metralhadoras a cada nova esquina do tempo em que se passa naquele cilindro onde se faz a ressonância magnética.

Que invenção mal acabada! Para que ouvir esses ruídos todos? Não pode ser bom o que se afasta tanto da beleza, da harmonia de linhas ou sons. E, no entanto, é com isso que se conta. E por ele se espera para saber mais. Enquanto se suporta mais um fim de mundo sem conhecer o que virá.

 

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A beleza da viagem

o rio Arno e a região sudoeste de Florença vistos a partir da Galeria Uffizi por Riccardo Imaeda

A beleza está quase extinta nos jornais e outros meios de comunicação. Ela sobrevive apenas nos cadernos de turismo. Até na seção de Artes e Cultura ela foi substituída por imagens e produções que procuram antes chocar ou ‘conscientizar’ do que expressar uma visão de assombro ou encantamento diante da realidade ou da imaginação. Querem reduzir o que é bonito à ingenuidade em um mundo brutalizado e marcado pelo cinismo.

Talvez por isso o desejo de viajar se reacende. Não apenas para voltar a contemplar com prazer, mas para respirar e reencontrar o melhor de mim mesmo, que se arrisca a desaparecer sob os escombros desse inferno. Mais do que a busca de lugares novos vale a busca pela beleza que ainda sobrevive. A beleza de paisagens e obras, conjuntos e detalhes. Viajar para fugir, viajar para se manter diferente. Agora que o caminho se estreita e não encontro mais quase ninguém.

 

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Forza sempre, Jerry Adriani

[ao som de ‘Nel frattempo’, versão em italiano de ‘Por enquanto’, de Renato Russo, na voz de Jerry Adriani]

 

Enquanto minha mãe estava à máquina de costura na sala, ouvia o rádio e a música parecia vir da janela sem vista, ou com vista para a parede do vizinho. Era mais uma dessas tardes mornas, em que a rotina parecia repetir a mesma tarde de tantos dias. Era o começo dos anos setenta, mas poderia ser o fim dos sessenta; um longo mesmo dia. Apenas as músicas traziam alguma novidade diferente, algum lugar de fora para aquela casa. Não lembro bem das canções, mas os nomes dos cantores, esses ficaram para sempre. Roberto Carlos, Wanderleia, Paulo Sérgio, Jerry Adriani.

Teatro do Sesi, avenida Paulista, 1999. No show de lançamento de ‘Forza sempre’, disco tributo a Renato Russo com versão em italiano de grandes canções da Legião Urbana, tudo ia bem até que alguns espectadores reclamam do uso de playback. Com muita calma e elegância Jerry explica esse uso face à dificuldade de ter todos os instrumentos no palco, desliga os plugues e continua a cantar magnificamente. O incidente serviu para quebrar a aura de magia do espetáculo mas trouxe um momento de conversa que deixou o cantor mais próximo do público. Tanto tempo depois volto a ouvir sua voz, agora ao vivo, interpretando músicas que sempre me emocionaram e marcaram minha vida.

Trinta anos de diferença, muitas vidas depois, é um encontro, um reencontro e uma saudade infinita.

 

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A volta

gavetas com cartas de imigrantes no Museu da Imigração, na Mooca, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

Ouvir o som da pulsação do seu corpo através do Ecodoppler é como ouvir o universo em trânsito ou o fundo do mar. Depois de um estranhamento inicial você começa a sentir um carinho cada vez mais particular a esse barulho que vai ganhando sentido e simpatia. É líquido e ao mesmo tempo vivo, sem cor mas com tantos matizes. Como se no interior das artérias o fluxo o ritmo o tônus soubesse os caminhos mesmo no escuro porque escuro parece não ser. Esse som parece vir com uma luminosidade da natureza, aquela que orienta os percursos dos sonhos e dos arroubos da intuição. Às vezes soa como enxurradas em cápsulas levando o barco para um tour desconhecido. Mas não há medo. Muito rápido acontece uma sintonia com essas ondas barulhentas. Nelas se pode reconhecer o canto de baleias, o trinado de pássaros, o uivo dos ventos. Por dentro você se descobre em retorno a uma casa que sempre foi sua.

 

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Um dia a mais

detalhe do espetáculo ‘Os reis preguiçosos’ da companhia de teatro francesa Transe Express, em Ipiranga, São Paulo, por R.I.

Les Misérables, dezesseis anos depois no palco outra vez. Uma nova versão, muito pouco diferente da que vi em 2001, mas quanto mudou no mundo, no país e na vida pessoal! Era uma época em que ainda havia algum encanto ou esperança no processo político e social, em que se acreditava em algumas instituições e segmentos, na ação coletiva, em ideais. Uma inocência ingênua ou teimosa, uma não contaminação. Quando se podia chorar por identificação com as causas justas, com os gestos compassivos, as razões certas.

Agora é um gosto de passado. Como se os personagens que vejo passando se misturassem com o espectador, que se mudou para o espaço da ficcionalidade. Eles vivem em mundo que se evaporou em possibilidades que deixaram de ser. Ainda podemos chorar, mas de saudade e pesar. A lógica cínica do casal Thénardier parece ter se espraiado onipresente, as injustiças se consolidaram em pedras que bilhões de Valjeans estão condenados a quebrar, mesmo com todas as novas tecnologias.

As canções ainda me arrepiam com as melodias amplas e as notas dramáticas, sublinhadas por interpretações de verdade e furor. A cenografia continua minimalista, permitindo que os atores ocupem o espaço com seu talento.

Les Mis ainda me diz muito. Talvez agora de uma forma diferente. Antes me mostrava a fantasmagoria de projetos em que poderia me sentir participante. Então, como em ‘I dreamed a dream’, os tigres vieram de noite com suas vozes suaves como o trovão. Na tempestade em que tudo parece se diluir Les Mis resta bravejante como uma lembrança da humanidade que poderia ter sido.

*

O elenco está magnífico. Algumas traduções melhoraram, outras permanecem insatisfatórias. As legendas de localização sumiram e fazem falta. O público exulta com a alta qualidade do resultado final.

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Depois daquele filme

detalhe da sala Drive-in no cine Caixa Belas Artes em São Paulo, por Ricardo Imaeda

Fiquei muito contente quando ela me disse que tinha ido ao cinema, que foi ver ‘La La Land’ (de Damien Chazelle). Ela falou de passagem, sem nenhum estardalhaço. Poderia ser um acontecimento trivial para uma outra pessoa, mas não para ela. Que simplesmente foi porque quis, porque gosta de musicais. Não tinha sugerido o filme a ela. Nenhum estímulo, nenhuma forçada. Quanta diferença daquelas outras vezes em que ela se limitava a lamentar dos problemas, das deficiências, da impossibilidade de agir em qualquer direção. Agora não. Ir ao cinema! Ver ‘La La Land’! porque não foi ‘Manchester à beira mar’ ou outro filme para baixo, que deixa mais sombrios quem se expõe a eles.

‘La La Land’ é uma alegria de viver. Não bobamente, sem consequências. Ele deixa a gente feliz por trazer leveza ainda quando representa as durezas da vida. Talvez pela música, pelas coreografias, talvez pela atmosfera de passado e sonho, talvez pela compaixão.

Ela foi ao cinema ver ‘La La Land’ e só por isso o mundo ficou um pouco melhor.

 

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