Fellini, 100

sala dedicada a Fellini em Cinecittà, Roma

Mais do que qualquer outra coisa a visita a Cinecittà me atraiu por causa da sua relação com Fellini. Sabia que ele havia filmado boa parte de suas produções nesses estúdios e que ele tinha um carinho especial pelo lugar, mas não sabia que a ele havia uma sala inteira dedicada no museu, com uma rica memorabilia de seus filmes. Na visita guiada soube, ainda, que o estúdio 5 foi onde ele recriou a laguna de Veneza para ‘Casanova e a revolução’ e que durante as gravações Fellini literalmente morava em uma sala anexa. Logo na entrada, nos jardins está a cabeça de Venusia, do mesmo filme. Hoje seria seu centenário. Por muitos anos ele foi meu cineasta preferido, em um tempo em que a fantasia e uma visão afetiva da vida conseguiam se impor sobre a aridez de uma hiper-realidade que espolia o que resta deste lado da tela. Cada vez que revejo as fotos de Cinecittà me sinto ainda próximo – não, gostaria de me sentir ainda próximo de seu ideal estético de existência…

 

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Tangentes

É tarde de uma segunda-feira de garoa quando passo perto do Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo. Vejo muitos turistas como em poucos lugares da cidade. Turistas de tantas origens diferentes, tantos estrangeiros. Parece que estou mesmo em terra estrangeira. Em uma sorveteria me perguntam ‘Wanna try?’ e então me dou conta de que sou isto também como um turista. Ainda que me sinta assim da forma como vejo e vivo a cidade esse olhar de fora me surpreende. É um ponto de coincidência inesperado, um encontro de visões em tangentes, centrífugas, de raspão, como tendem a ser os conhecimentos em viagem.

Olho para os turistas sem me reconhecer; me olham como turista; me olho sem me reconhecer, com toda a paisagem que se satura em nova imagem que se faz estranhar. Essas linhas se cruzam rápido e desaparecem quando caminho mais alguns metros para fora da cena, de volta às margens.

 

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Em uma nave ainda mais distante

A letra M tem um desenho similar à nave de Kylo Ren, da última trilogia de ‘Star Wars’…

‘Star Wars’ foi um dos primeiros filmes que vi sozinho, adolescente, quando nem havia a ideia de que ele se prolongaria por nove episódios. Agora, quarenta e dois anos depois, vejo o último filme da saga. Entre esses dois pontos toda uma vida se desenvolveu por caminhos vacilantes, de muitos recomeços, com guinadas mais surpreendentes do que em qualquer ficção. A vida sempre foi mais original e mutante. Mais complexa, mais exigente. Como se o roteiro dela não estivesse apenas aberto mas cheio de furos, inconsistente, contra todos os manuais. Enquanto isso, os filmes parecem invariantes, como estruturas inorgânicas, previsíveis, simples demais. Ainda assim eles são capazes de tocar.alguma coisa que restou incompleta em minha biografia. Que talvez ressuscite cada vez que a trilha sonora desate suas notas ou aquela frase ressoe seu voto (‘que a Força esteja com você’) como verdade. Afinal, chegar até aqui foi uma realização da Força (do Dharma, do Tao…).

O desfecho da saga ‘Star Wars’ nunca poderia ser satisfatório porque deveria acontecer lá, naquele passado. Ou não deveria se propor como um fim em uma adolescência que trai o tempo e ensaia se transmutar em outra continuação.

 

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No caminho, com Oliver Sacks

O que sobrevive na memória meses após a leitura de um livro? Talvez alguns episódios com que houve identificação, uma ou outra frase que se quer reutilizar, a ideia geral que pontua toda a história. Para mim, ‘Sempre em movimento’, a autobiografia de Oliver Sacks continua a pulsar por sua capacidade de exprimir um caráter, uma personalidade. É difícil de explicar e de exemplificar. Sacks reconhecidamente sabia contar e recontar as histórias de seus pacientes. Demonstrava uma profunda humanidade na relação com eles, uma escuta atenta e amorosa, uma verdadeira preocupação com eles e além disso, uma abertura para o novo, o desconhecido. E é essa inquietação constante o que parece marcar todo o seu percurso. Suas buscas infindáveis e alternadas, o impulso para compreender os mecanismos por trás das peculiaridades da consciência sem perder de vista a contemplação do mistério – o mistério que lhe encanta e encanta o leitor.

Sua história de vida transborda de realizações, que bastariam a qualquer biografado. Mas é a forma como ele se move que o faz durar na lembrança. Como um viajante sempre deslocado, que não cabe nos veículos com que roda nem nos cadernos em que anota, não se conforma com os roteiros, expande as fronteiras do que é possível saber e tantas vezes se comove com cada afeto que consegue estabelecer ou recuperar.

 

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Para quando se perder em Roma

Piazza Navona em Roma – Elio e Oliver andaram por aqui

 

Uma das caminhadas mais fascinantes da literatura contemporânea acontece na terceira parte de ‘Me chame pelo seu nome’, de André Aciman. O filme, dirigido por Luca Guadagnino, e que deu projeção ao livro, se concentra nas  duas primeiras partes. Quem viu o filme sabe que essa é a história de um primeiro amor para Elio – na figura do hóspede Oliver. Essa terceira parte conta os poucos dias em que os dois passam em Roma antes da partida de Oliver de volta para os Estados Unidos. Uma das noites é especial: começa com a sessão de autógrafos de um poeta maduro em uma livraria e se desdobra em uma espécie de sarau, depois se desloca para um jantar tardio em um restaurante e depois em um café em Sant’Eustacchio e depois em um aperitivo no meio da madrugada e depois em caminhada por ruas e praças e fontes quase desertas do centro histórico de todos os tempos. Elio vai andando cada vez mais encantado com as pessoas, os ambientes e a magia do momento. Sabe que é esse universo que quer para si, marcado pela beleza, por uma atmosfera de liberdade, pertença e amor. Ao mesmo tempo sente sua fugacidade. Ouve um artista de rua entoar uma antiga canção, de que se lembra, uma canção napolitana muito triste, ‘Fenesta ca lucive’, que fala sobre um jovem que passa pela janela de sua amada quando a irmã dela lhe diz que ela tinha morrido. Ambos vão cantando o refrão no caminho de volta para o hotel:

“Ela chorava sempre porque dormia sozinha

Mas agora dorme acompanhada da morte”

Aciman arremata: “Agora, da distância de anos, ainda acho que ouço as vozes de dois jovens cantando esses versos em dialeto napolitano até o amanhecer sem que nenhum deles percebesse, enquanto se abraçavam e beijavam seguidamente pelas ruelas escuras da antiga Roma, que essa seria a última vez em que se amariam de novo.”

Todo o percurso é carregado de fisicalidade e sentimento, tingido por tons nuançados, suaves, potentes, que imprimem a cada pedaço da cidade uma memória personalíssima, que retornará sempre que a visitar. Em sua fina composição Aciman consegue sobrepor mais uma camada de sentidos a uma cidade tão complexa e por vezes tão hostil…

 

[Não existe versão mais pungente de ‘Fenesta ca lucive’ do que a de Roberto Murolo: https://www.youtube.com/watch?v=OvOVryWwajg ]

 

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Ainda é tarde

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Conhecer um livro no tempo certo faz toda a diferença. Assim, ler ‘Promessa ao amanhecer’, de Romain Gary, na maturidade permite perceber com maior clareza as modulações de humor, os deslizes e a sutileza de detalhes que o autor desata ao narrar a história de sua forte ligação com a mãe – sem reduções psicanalíticas, como bem adverte logo de início. A força da presença da mãe pode ser notada em cada gesto seu como inspiradora de sentido e de destino ao longo dos períodos de pobreza e guerra. É um amor que confere substância ao que poderia ser apenas sentimento, que fica mais nítido na distância física, e baliza todas as outras formas de relacionamento do personagem-autor.

As resenhas ressaltam o tom picaresco como dominante, como se a nota principal fosse a de uma comédia de costumes. Mas as sombras dos intervalos temperam o texto com outro sabor:

“Todas as novas amizades que experimentei depois da guerra só tornaram mais sensível esta ausência que vive ao meu lado. (…) O céu, o oceano, a praia de Big Sur deserta estendendo-se até o horizonte: sempre escolhi para vagar sobre a Terra os lugares onde há espaço suficiente para todos aqueles que não estão mais aqui.”

Essa falta que exige espaço, conhecemos bem. É aquele vazio existencial em meio a um emaranhado de afazeres e agitações. Um lembrete que volta com alguma constância, que parece ganhar frequência à medida que envelhecemos. Que incomoda como um sintoma, mas conforta como uma companhia…

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Não finito

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Com Michelangelo aprendo que não existe um fim. Um ponto final a qualquer obra, um basta, um momento de chegada. Não apenas porque a vontade está sempre em movimento, puxando o traço em outras direções, mas mais ainda porque a obra escapa à órbita do criador e perde toda a condição de repouso. A cada contato com um novo observador ela será perturbada em seu sono e provocada a uma nova coreografia de sentidos.

Talvez por isso em suas esculturas deixou sempre segmentos não finitos – e não só para lembrar a continuidade entre matéria-prima e criação. Talvez por isso sua irritação insatisfeita com os resultados, que pareciam não vencer os limites do tempo.

Quando a natureza impôs seu termo inevitável a Pietà interrompida parece dizer que não é bem assim. Inacabada, imperfeita, nos vazios do que não foi percorrido respira o artista que não foi embora.

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